

Jamile Nusse
20 de ago. de 2025
Nos últimos anos, um número crescente de pessoas tem relatado a sensação de que não são humanas, mas sim originárias de outros mundos, dimensões ou raças espirituais. Esse fenômeno aparece em diferentes contextos, como o movimento Otherkin, os chamados Star Seeds (sementes estelares) ou mesmo narrativas pessoais de vidas passadas fora da Terra.
Mas afinal, isso seria apenas uma forma de alienação ou pode ter fundamentos espirituais legítimos?
A raiz psicológica: o deslocamento humano
Do ponto de vista da psicologia, essa sensação costuma estar associada a:
Sentimento de não-pertencimento: Estudos sobre identidade e personalidade mostram que pessoas que se sentem cronicamente deslocadas tendem a buscar narrativas que expliquem essa diferença (Tajfel & Turner, 1986 – Teoria da Identidade Social).
Mecanismo de coping (enfrentamento): Criar uma identidade “não-humana” pode funcionar como defesa psicológica diante de uma realidade percebida como hostil ou dolorosa (Freud, 1936 – Mecanismos de Defesa).
Busca por propósito: Viktor Frankl (1946), em sua Logoterapia, já destacava que o ser humano suporta quase qualquer situação quando encontra um “porquê”. A crença de ser “de outro lugar” dá um propósito maior para a existência.
Segundos esses estudos, em alguns casos, quando a crença é muito rígida ou causa isolamento social, pode se aproximar de quadros de despersonalização, delírios de grandeza ou distúrbios dissociativos, embora nem sempre se trate de doença mental.
Olhar espiritual: memórias das almas (com os pés no chão)
Na perspectiva espiritual, a sensação de não ser humano pode ser interpretada como uma lembrança da alma: memórias de outras existências, dimensões ou povos cósmicos. Dentro dessa visão, crenças como a dos Star Seeds ou dos Otherkin não são apenas fantasias, mas formas de expressar uma ligação com algo que transcende a vida terrena.
No entanto, aqui precisamos ter muito cuidado.
Estamos na Terra, não em outro planeta. Querendo ou não, estamos encarnados nela. Por mais que exista um certo fundamento espiritual, é aqui que a vida acontece. Isso significa que, queira ou não, precisamos aprender a viver em sociedade, já que a experiência humana é construída em grupo.
Além disso, é importante reconhecer que, aos olhos de outras pessoas, falar abertamente sobre “não ser humano” pode soar estranho ou até mesmo insano. E carregar esse estigma só gera dores de cabeça desnecessárias. Por isso, cautela e jogo de cintura são indispensáveis: cada um tem o direito de sentir o que sente, mas nem tudo precisa ser exposto de forma crua.
Em Vanadis, trabalhamos com fundamento e lógica. Não se trata de simplesmente torcer o nariz para crenças espirituais — afinal, quem melhor para definir o que alguém sente do que a própria pessoa? —, mas sim de integrar espiritualidade com discernimento. Parte disso é sempre considerar também uma explicação psicológica: nem tudo é espiritual. Muitas vezes, o que se interpreta como “memória estelar” pode estar relacionado a questões de identidade, traumas ou mecanismos de defesa da mente.
Entre alienação e espiritualidade: a linha tênue
A diferença entre uma experiência espiritual saudável e um processo de alienação está justamente na forma como a pessoa integra essa crença à vida prática.
Alienação prejudicial
A crença afasta a pessoa da realidade cotidiana.
Serve como desculpa para não lidar com responsabilidades.
Gera isolamento social e rejeição da própria humanidade.
Espiritualidade saudável
Dá sentido à vida sem negar a realidade terrena.
Inspira propósito, compaixão e serviço ao próximo.
É integrada com lógica e equilíbrio à vida prática.
O risco do elitismo espiritual
Um dos cuidados mais importantes é evitar o elitismo espiritual. Algumas pessoas caem na armadilha de acreditar que, por se considerarem “de outro lugar”, são superiores às demais.
Isso pode gerar:
Sensação de superioridade moral ou espiritual.
Divisões dentro das comunidades espirituais.
Isolamento e arrogância, que nada têm de evolução.
Na psicologia, esse fenômeno é próximo do que se chama ilusão de grandeza. Já na espiritualidade, mestres de várias tradições alertam: o verdadeiro sábio não se coloca acima dos outros, humildade é essencial.
Para que a crença em origens não-humanas seja algo enriquecedor, é fundamental buscar equilíbrio:
Autoconhecimento – terapia, meditação e reflexão para diferenciar lembranças espirituais de mecanismos psicológicos.
Enraizamento – honrar a experiência humana, mesmo acreditando em outras origens.
Cautela social – falar dessas crenças com discernimento, evitando ser mal interpretado.
Serviço – usar essa sensação como motivação para ajudar, não como justificativa para se afastar.
Humildade espiritual – lembrar que todos, humanos ou não, estão no mesmo caminho de aprendizado.
Não é necessário negar a espiritualidade para ter equilíbrio, nem rejeitar a psicologia para viver experiências espirituais. O ponto está em aliar lógica e fé, lembrando que estamos na Terra, vivendo como humanos, e é aqui que devemos aprender, crescer e nos relacionar.
Cada um tem o direito de sentir o que sente, mas quando unimos espiritualidade, psicologia e cautela, a crença deixa de ser um motivo de alienação para se tornar uma fonte de propósito e sabedoria.